Jorge Sobrado
Vereador da Cultura da Câmara Municipal do Porto

“O MALHA é um reencontro com uma ideia de cidade”
O vereador da Cultura da Câmara Municipal do Porto, Jorge Sobrado, projeta o MALHA. Porto, Património de Pessoas, o programa que vai assinalar os 30 anos da classificação do Centro Histórico como Património Mundial pela UNESCO.
O que é o programa MALHA. Porto, Património de Pessoas?
E o que distingue esta de outras iniciativas culturais do município?
O MALHA é um reencontro dos portuenses com uma ideia de cidade. Uma cidade que é um património comunitário, um património de pessoas, que se tem de repensar e refazer como rede, como conjunto, como malha, permanentemente. Nesse sentido, o MALHA é um programa participativo, não é desenhado nem realizado em gabinetes ou por diretores artísticos municipais, mas pelos próprios portuenses, sejam os curadores convidados, as instituições culturais, as associações ou os cidadãos, que se podem associar livremente.
O nome MALHA aponta para uma ideia de rede e de território.
Porquê este nome e que visão traduz?
Todas as cidades são feitas e sustentadas por ligações. Quando essas ligações – de sentido, de pertença, simbólicas, sociais – se enfraquecem ou mudam abruptamente, emergem crises e tensões. O MALHA quer ser um momento para pensar a cidade, o que nos sucedeu nos últimos 30 anos, mas também para pensar, interpretar e viver o que nos liga uns aos outros, num todo que é feito de diversidade e mutações. O Porto sempre foi uma cidade mutante, mercantil e cosmopolita, mas que soube cerzir a sua malha, num território humano, com uma identidade plural e forte.
Durante um ano o MALHA assinala os 30 anos da classificação do Porto como Património Mundial da UNESCO. O que vai mudar na cidade ao longo deste ano?
O Porto não muda com o MALHA. Porventura, a cidade tomará mais consciência de si mesma, da sua dimensão humana histórica, do seu devir, e do que é hoje. Um património humano está sempre ainda a chegar. O facto de sermos convidados a visitar e descobrir a cidade – a sermos como que turistas no nosso próprio território, na nossa rua –, a contactarmos com comunidades da nossa vizinhança, ou reolhar a paisagem do Centro Histórico através da arte ou a contarmos e cantarmos juntos, em diálogo com memórias vivas, tornará essa consciência e essas ligações mais fortes e mais atuais.
Como é que o programa se materializa no território e no espaço público?
O MALHA é um programa de intervenção participativo e predominantemente vivido em espaço público. Terá uma agenda de realizações – visitas, espetáculos, convívios, sessões de cinema, campanhas, profundamente participadas – que nos fará sair às ruas do Porto, convidando a interpretar as marcas do tempo histórico, da música ou da arte pública, a relacionarmo-nos com realidades e comunidades menos visíveis, e rememorando-nos um sentido de comunidade. Mais do que públicos, os portuenses serão rosto e alma, atores e participantes. E o espaço público será o palco desse reencontro, rememoração e das suas novidades.
A programação organiza-se em cinco grandes temas.
De uma forma breve, o que define cada um destes eixos?
É uma forma de arrumação de ideias e de comunicação da diversidade de realizações. O primeiro eixo, Pensar a Cidade, quer promover sobretudo uma consciência crítica, um espaço de pensamento coletivo, escapando a qualquer grilhão académico. Haverá conversas de café, caminhadas críticas, oficinas artísticas sobre património, sessões de cinema, e também uma grande conferência. Vai pensar-se vivências, usos e representações do Porto. O segundo eixo é dedicado a redescobrir e contar histórias, em visitas, exposições, num coral do cancioneiro portuense, novos guias. Chamamos-lhe Contar a Cidade. O terceiro – designado Riscar a Cidade – revisita a arte pública contemporânea do Porto, produzida nos últimos 30 anos, mas convoca também artistas de diferentes gerações a produzir novos significantes e ligações no espaço público, reconfigurando a nossa forma de o viver em conjunto. O quarto eixo chama-se Dançar a Cidade e convida os portuenses para iniciativas comunitárias, pedagógicas e artísticas, maioritariamente no Centro Histórico, explorando o corpo como arquivo de memória e de transmissão cultural, seja na dança, em karaokes, na gastronomia ou em sessões de leitura. O quinto eixo está vocacionado para expandir a inscrição ou participação da geografia humana no MALHA. Convocar a Cidade, assim se chama, quer trazer para o primeiro plano o que corre o risco de ficar na sombra. As comunidades migrantes e os entregadores de comida, os gostos plurais do Porto através da música, os cuidadores de gatos – tudo isso faz a cidade.
De que forma os cidadãos participam na programação: como público ou como criadores?
Potencial e desejavelmente em ambos os papéis. Acredito que muitos portuenses e comunidades portuenses se sentirão participantes e cocriadores, seja através de exercícios de rememoração e de representação, seja na própria realização, dinamização ou acolhimento das atividades. O MALHA tem de ser a consciência e a voz plurais do próprio Porto.
Quando arranca o MALHA e onde acontece, como se distribui pela cidade?
Em rigor, o programa já está a acontecer, desde 5 de dezembro, quando apresentámos a sua ideia e objetivos, no Guindalense. Entretanto, realizámos o fórum da Cultura, uma conversa no café Ceuta, um concerto na Casa da Música. Mas o programa comissariado arrancará a 5 de julho, seis meses antes dos 30 anos da classificação do Centro Histórico do Porto pela UNESCO, prolongando-se até seis meses depois, embora creia que haverá ideias e projetos que darão continuidade ao MALHA. Toda a geografia da cidade será tomada, de um modo ou de outro, em especial o Centro Histórico, mas também a zona oriental.
Que legado, físico e simbólico, espera que o MALHA deixe na cidade a médio e longo prazo?
O melhor legado será social. Fazermos do Porto uma cidade culturalmente mais consciente e participante, na sua diversidade; menos excluída. Do ponto de vista simbólico, eu destacaria os Caminhos a Oriente, projeto-âncora de inventário coletivo e de reativação da paisagem e dos caminhos do vale de Campanhã, espécie de espelho dos Caminhos do Romântico, criados na Porto 2001. É um projeto feito de memória coletiva e de palavras, de cidade-campo, cidade-água, cidade-indústria, e de transformações urbanas. No plano físico, acalento a expetativa de vermos devolvida plenamente à cidade a primeira Câmara Municipal, ou pelo menos em curso a sua reabilitação. Refiro-me à Antiga Casa da Câmara, projeto do arquiteto Fernando Távora, no morro da Pena Ventosa. É um memorial simbólico do Porto e pode ser, também, um polo cultural do Museu do Porto.