
É quinta-feira à tarde na Praça da Batalha. Por entre as buzinas do trânsito que negoceia uma faixa de circulação única, e acima das discussões por vezes entusiasmadas de quem faz uso dos bancos da Praça, ouvem-se arpejos quentes de sintetizador e uma voz que canta um amor sofrido. A música vem das janelas abertas da sede do Orfeão do Porto, onde têm ainda lugar bailes semanais — últimos sobreviventes do que noutros tempos foi um roteiro de bailes um pouco por toda a cidade. Para os habituais da Batalha, esta música oferecida à rua não é surpresa — dir-se-ia que é, até, esperada, e apreciada, por quem gosta de ouvir sem ter de arriscar um pé de dança — mas os turistas que por ali se passeiam procuram, com curiosidade, a fonte destes apontamentos latinos que emanam de um edifício rodeado por hotéis.
Partilhar, ouvir e refletir: foi deste impulso coletivo que nasceu o PORTO. Regresso ao Futuro: 1996 – 2001 – 2026, um fórum que, em fevereiro passado, veio congregar pensamento crítico e visão estratégica, para revisitar dois momentos decisivos da cidade na viragem de século: a classificação do Centro Histórico como Património Mundial da UNESCO e a Porto 2001 – Capital Europeia da Cultura. Estes dois acontecimentos marcaram uma transformação profunda na história da cidade. Para além de catalisadores do progresso urbano e socioeconómico da cidade, projetaram o Porto como uma cidade mais culta, moderna e consciente do seu lugar em Portugal e na Europa – uma comunidade com uma identidade singular e um renovado orgulho coletivo.
Mas não só. Foi também neste fórum que se assinalou o arranque do MALHA. Porto, Património de Pessoas, um programa participativo para convocar a cidade – na sua dimensão física e social – a pensar e imaginar os futuros do seu Centro Histórico. Mais do que celebrar o passado, trata-se de reencontrá-lo como motor de transformação passível de lançar e orientar novas formas de pensar e viver a cidade. Uma ideia de cultura que emerge como um poderoso instrumento de coesão social, promovendo o encontro, a partilha e a participação cívica. Uma ideia que não se dissocia da identidade de uma cidade milenar, nem do desenvolvimento do bem-estar coletivo – antes os celebra e coloca em diálogo.

Em dezembro do ano passado, no Guindalense Futebol Clube, um dos mais característicos locais da zona ribeirinha da cidade, já ocorrera a apresentação do MALHA. Porto, Património de Pessoas, assinalando o ponto de partida de 12 meses de intensa atividade – seis dos quais antes e outros seis após o 30.º aniversário da classificação da UNESCO.
Se algo aprendeu o Porto em 2001 é que a cultura se tece como uma malha: em comunidade, no trabalho em rede e no diálogo permanente de todas as vozes da cidade. O derradeiro painel de debate do fórum PORTO. Regresso ao Futuro: 1996–2001–2026 colocou em perspetiva os últimos 30 anos da cultura portuense e o efeito de réplica da programação artística da Capital Europeia da Cultura – quando o Porto se reencontrou com a sua tradição multicultural e cosmopolita –, mas também a clivagem que esse ano na vida da cidade provocou no pensamento sobre as políticas públicas de cultura na região e no envolvimento da sociedade e das instituições.


No Café Ceuta, lugar de encontro, ideias e discussões, o Município promoveu, a 29 de março, data em que se celebrou o Dia Nacional dos Centros Históricos, uma tertúlia que reuniu os curadores do MALHA para lançar o debate em torno dos seus vetores programáticos: Pensar, Contar, Riscar, Dançar e Convocar uma cidade-património através dos seus lugares, das suas pessoas e da sua identidade.
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