
É quinta-feira à tarde na Praça da Batalha. Por entre as buzinas do trânsito que negoceia uma faixa de circulação única, e acima das discussões por vezes entusiasmadas de quem faz uso dos bancos da Praça, ouvem-se arpejos quentes de sintetizador e uma voz que canta um amor sofrido. A música vem das janelas abertas da sede do Orfeão do Porto, onde têm ainda lugar bailes semanais — últimos sobreviventes do que noutros tempos foi um roteiro de bailes um pouco por toda a cidade. Para os habituais da Batalha, esta música oferecida à rua não é surpresa — dir-se-ia que é, até, esperada, e apreciada, por quem gosta de ouvir sem ter de arriscar um pé de dança — mas os turistas que por ali se passeiam procuram, com curiosidade, a fonte destes apontamentos latinos que emanam de um edifício rodeado por hotéis.
Entre as paredes revistas a património do Café Ceuta, lugar de encontro e tertúlias, desenrolou-se a conversa que tece o MALHA, o programa municipal de celebração do Centro Histórico do Porto como Património da Humanidade. Em pleno Dia Nacional dos Centros Históricos, começou o tempo de Pensar, Contar, Riscar, Dançar e Convocar uma cidade-património através dos seus lugares, das suas pessoas e de uma identidade que cuida de ambos.
Nas palavras do vereador da Cultura e Património, que conduziu os caminhos de uma tertúlia onde também o presidente da Câmara, Pedro Duarte, marcou presença, o MALHA "é um programa de convocatória" dos portuenses ao debate "sobre o que é ser uma cidade património da Humanidade", com programação nos seis meses que antecedem a data de classificação pela UNESCO - dezembro - e, "pelo menos", seis meses depois.
"A palavra MALHA tem vários sentidos: deixar uma marca, fazer, coser, juntar pessoas e ações", afirma Jorge Sobrado.
Existindo uma maior atenção ao Centro Histórico, toda a geografia da cidade será convocada em torno de cinco eixos programáticos.
Pensar a cidade
"Pensar a cidade" traz à discussão uma reflexão crítica sobre o território, convocando olhares da arquitetura e da geografia para pensar modelos de habitar, formas de transformação urbana e futuros possíveis para o Centro Histórico. Tem como curadores a arquiteta Andreia Garcia e o geógrafo Álvaro Domingues.
Contar a cidade
Com percursos orientados pelas narrativas, lugares, memórias e gestos que moldam a identidade do Porto, cruzando histórias e patrimónios e revelando vozes que construíram e constroem a cidade, o eixo "Contar a cidade" tem curadoria da poeta Minês Castanheira e do historiador Joel Cleto.
Na tertúlia no Café Ceuta, Joel Cleto reforçou a certeza do Centro Histórico enquanto "lugar a partir de onde a cidade nasceu e se afirmou. É um grande esteio do desenvolvimento e da dinâmica da cidade". Para o historiador, o MALHA traz consigo a necessidade de "valorizar e envolver os residentes para que a identidade do Centro Histórico continue a estar preservada", não apenas materialmente, mas na sua vertente social e comunitária.
No mesmo sentido, e certa de que "a cidade está viva, está vibrante", Minês Castanheira considera que "o que temos de preservar, de proteger, perde valor se não estiver acessível".
Dançar a cidade
Na vertente que pretende "Dançar a cidade", a coreógrafa Luísa Saraiva e o programador Paulo Vinhas estão a desenhar uma programação da palavra, da música e das artes performativas, ampliando a vitalidade cultural do Centro Histórico.


Nas palavras de Luísa Saraiva, "a experiência de viver num Porto em alturas onde a cultura não era tão valorizada traz muita vontade de criar para entender a cidade". O objetivo, partilha, "é levar as artes performativas a lugares inusitados" e, essencialmente, fazê-las "criarem raízes", investir "em eventos que se sustenham no tempo".
Riscar a cidade
Chamados a "Riscar a cidade", a curadora Rita Roque e o artista visual José Almeida Pereira propõem uma intervenção e reimaginação do espaço público através da produção de novas criações de arte contemporânea (escultura, instalação, intervenção mural, iluminação, som, entre outras).
Rita Roque adianta que será "um programa disruptivo", que inclui a aquisição de novas peças para o Programa de Arte Pública do Município, assim como "um roteiro pelo que já existe", enquanto José Almeida Pereira sublinha como "os artistas estão na linha da frente no ato de pensar a cidade".
Convocar a cidade
Procurando a participação, o diálogo e a criação comunitária, a coordenadora de cultura Joana Meneses Fernandes e o diretor da MEXE, João Ferreira, assumem a missão de "Convocar a cidade", mobilizando práticas colaborativas para reforçar o sentido de pertença, diversidade e coesão social, para lá da geografia do Centro Histórico.

Para Joana Meneses Fernandes, não há dúvidas de que "ser Património da Humanidade é reconhecer que há ali uma certa forma de estar, uma identidade de que ali habita". "Dentro do grande património do Porto, vamos buscar as pequenas histórias das pessoas que definem a cidade", acrescenta João Ferreira, lembrando que "o Porto também é a menina que vem da Covilhã para aqui estudar ou o rapaz do Nepal que vem abrir um restaurante".
O diretor cultural acredita que "quem vê de fora vê uma cidade de pessoas duras, mas quem está aqui sabe que não há cidade com maior carinho e cuidado". "São essas pessoas que vamos convocar para que saibam que também são património da cidade", afirma João Ferreira.
No mesmo sentido, Joana Meneses Fernandes também defende que "a identidade de uma cidade está na forma como somos a zona de proteção uns dos outros".
O programa detalhado do MALHA será apresentado em abril e conta, além dos projetos comissariados, com as dinâmicas das instituições municipais e a livre iniciativa com ideias vindas da comunidade.
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