Cartografia fotográfica de Sérgio Jacques leva-nos ao centro histórico do Porto de José Régio
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Cartografia fotográfica de Sérgio Jacques leva-nos ao centro histórico do Porto de José Régio
Inauguração exposição Afogada Claridade
Cartografia fotográfica de Sérgio Jacques leva-nos ao centro histórico do Porto de José Régio

A exposição inaugura no próximo dia 23 de outubro, no Museu da Misericórdia do Porto (MMIPO), e cruza a fotografia e a literatura numa revisitação e reinterpretação do Centro Histórico a partir da evocação do conto (autobiográfico) Uma gota de sangue de José Régio, publicado em 1945 no romance A Velha Casa. Esta cartografia fotográfica sobre memória, emoção, movimento e descoberta estará patente até 4 de abril.

Cartografia fotográfica de Sérgio Jacques leva-nos ao centro histórico do Porto de José Régio

 A exposição Afogada Claridade parte do projeto que Sérgio Jacques está a realizar para a revista O Tripeiro, da Associação Comercial do Porto, e surgiu num “momento particularmente feliz”, coincidente com o 125º aniversário de José Régio, no qual se evoca o conto (autobiográfico) Uma gota de sangue, publicado em 1945 no romance A Velha Casa. 

 Para o fotógrafo portuense, o convite lançado no âmbito do programa Malha. Porto, Património de Pessoas desafiou-o a deambular pela zona antiga da cidade ao encontro da dupla inquietação que também pontuou a viagem (interior) da jovem personagem Manuel Trigueiros (Lelito). E é nessa inquietação e no “obscuro desígnio do destino” que esta mostra se revela: na neblina, no arco afogado no nevoeiro, no céu brumaceiro, nas vozes abafadas, nas portas escondidas sob antigos arcos, no rio, nos edifícios estreitos, no empedrado primitivo, nas ruelas e ladeiras … na penumbra como um cenário fantástico.  

Em Afogada Claridade os registos fotográficos dialogam com trechos literários do conto Régio e nesse deambular pela zona antiga e centro histórico, Sérgio Jacques encontrou “mais pontos comuns do que divergentes” do Porto que o escritor descreve. “É aquela sensação que Régio escreve na atualidade, a tal alma do Porto da Agustina [Bessa-Luís] que até aos dias de hoje permanece, mas é, ao mesmo tempo, mutável”, reflete o fotógrafo. O conto de José Régio revela-se “muito interessante” porque se inscreve também “na juventude do próprio escritor, refletindo o espírito da cidade que cresce, envolve e se adapta às novas exigências, mantendo ao mesmo tempo essa alma portuense”… a alma de muralha (descrita por Agustina Bessa-Luís).


A mostra patente no MMIPO a partir de 23 de outubro encontra paralelo na personagem, nas palavras de Régio e na lente de Sérgio Jacques. Está orientada também para as questões urbanas da cidade, “a sua construção, a sua relação com as ruas e os edifícios, a presença inevitável do rio e da água que são uma constante, fala das pessoas que habitam o centro histórico, as suas vivências e relações”, sintetiza o fotógrafo portuense. “Nesta minha visão tento captar esse espírito do Porto, essas pessoas e espaços”. Um lugar povoado numa relação entre o construído e as vivências, entre “o móvel e o imóvel”, através de fotografias difusas, pictóricas, a preto e branco, que convocam “os visitantes a reconstruir o resto da fotografia que não está visível”.


“Nessa viagem entre fotografias, pessoas, memórias e espaços”, a exposição revela uma claridade que “em determinados locais e períodos não existe, não é explícita e resvala para uma dimensão mais difusa, um ambiente que não é nítido, nem perfeito”, explica-nos Sérgio Jacques. “Afogada Claridade convida os visitantes a olharem para as fotografias com o seu próprio olhar e memórias”, conclui.

A Praça do Infante, a Ribeira, a Ponte D. Luís I, as Escadinhas do Colégio, a Igreja dos Grilos, a Sé, a Rua das Flores ou a Praça da Liberdade fazem parte desta geografia literária regiana e reaparecem através do olhar de Sérgio Jacques. A mostra acompanha alguns desses lugares através de imagens e excertos do conto, numa dimensão poética e humana que não fica suspensa no passado patrimonial. 


A cidade acolhe a câmara fotográfica, desfoca o essencial e reaparece atravessada pelo movimento, pela indefinição e pela atmosfera nebulosa. É a fotografia como consequência de um encontro e a expressão do fotógrafo sobre o centro histórico. Essa dimensão é particularmente significativa num ano em que o Porto assinala os 30 anos da classificação do Centro Histórico como Património Mundial da UNESCO. Um momento de reflexão e reconhecimento que a cidade não existe apenas nas suas formas arquitetónicas e patrimoniais que permanecem, mas nas pessoas, nas atividades, nas memórias que somam e nas transformações que inevitavelmente acontecem.

Cartografia fotográfica de Sérgio Jacques leva-nos ao centro histórico do Porto de José Régio

DR Sérgio Jacques

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